Ela entrou no quarto que era usado como escritório, eu estava tirando tudo de dentro do armário (que nem era mais meu) procurando desesperadamente um chinelo que não usava havia meses.
A gente não sabia mais como absorver as coisas, mas pela primeira vez na vida concordávamos 100% com alguma coisa - Tinha que dar certo!
Ali paradas, uma olhando para a cara da outra, sem me interromper ela teve a melhor reação possível.
Não chorou, porque já não nos aliviava o medo.
Não brigamos, porque já não tínhamos motivos.
Ela não me criticou, porque estava disposta a crer em qualquer coisa que nos trouxesse esperança.
Ela não debochou, porque jamais ousaríamos anular qualquer possibilidade.
Poderia ter dito que era apenas uma bobagem, que era só uma lenda, ou coisa de criança, mas não.
Ela simplesmente olhou.
E em seguida viu
Consequentemente, entendeu.
E só entendeu, porque quando olhou, foi com um desejo tão ardente de compreender o outro, que eternizou o momento.
Desde então, nenhuma de nós duas, nunca mais foi a mesma.
Ela enxergou dentro da minha alma sem que eu precisasse dizer uma palavra.
Naquele instante, voltamos ao mesmo útero de onde as duas saíram e em uma fração de segundos, por uma eternidade paralela, fomos gêmeas, não apenas irmãs.
Nada precisou ser dito além de 3 frases.
- O que está procurando?
- Aquele chinelo.
- Está com medo de ele estar virado aí dentro?
Não pude responder, apenas acenei que sim com a cabeça.
Ela se jogou no chão pra ajudar a procurar e este gesto, em outros formatos mas com o mesmo significado, vem se repetindo desde então.
Não era a crença, não era o mito, não era a superstição.
Era o desespero de não ter o que fazer.
Era o tanto querer que algo que pudesse ser feito.
Era o desabafo, o protesto contra aquele sentimento de incapacidade.
Era uma tentativa desesperada de externar a única coisa que tínhamos pra fazer naquela situação:
Acreditar!
E foi o que fizemos.
Não estávamos procurando um chinelo, estávamos acreditando.
O chinelo eu não lembro, mas naquele episódio, com certeza várias outras coisas bem mais importantes foram encontradas.
A mãe em questão segue cada vez mais viva e os chinelos permanecem sempre muito bem guardados, todos pra cima, obrigada!
domingo, 12 de abril de 2020
quarta-feira, 8 de abril de 2020
No conforto do seu caos
Todo mundo tem alguma coisa pra dizer.
Na verdade, neste momento, todo O mundo tem algo pra dizer.
Quarentena é pra fracos, por aqui estamos de "cinquentena, sessentena" e por ai vai.
Todo mundo está surtando.
Aliás, todo O mundo está surtando.
Tem aquele que vê o jornal cedinho pra saber se o mundo acabou de madrugada
e tem quem só desliga a TV de manhã com aquele suspiro:
Ufa! Sobrevivi mais um dia!
O cachorro entrou na cozinha, eu de cá da janela gritei:
- Pra fora!
Um da rua gritou:
- É! Fora Bolsonaro! (Tá confuso mesmo)
O fato é que ninguém sabe exatamente o que sentir ou em que acreditar.
A gente tem que olhar diariamente na internet, pra decidir se naquela dia é pra amar ou odiar o governo.
Está tudo de cabeça pra baixo.
No supermercado, alguém mede sua temperatura quando entra
e na rua, um cara que não tem casa pra "ficar dentro" pede um pouquinho de álcool gel.
Vai diagnosticar o que com esse termômetro garota? (mas é moda)
E vai limpar o que com esse álcool moço? (pior que também tá na moda)
A dona do sacolão da esquina estava usando um capacete de solda
e o dono da oficina estava soldando um escapamento usando luva plástica, dessas de tinta de cabelo.
Tem tanta engenhoca criativa que tá mais fácil morrer de asfixia do que de vírus.
As academias estão incentivando a malhar um pouco em casa,
o problema é que a casa tá incentivando a comer "um muito", de tudo que tem na geladeira.
A gente administra muito bem, todas as 8 horas úteis do dia para trabalhar (com as crianças pulando), comer (com as crianças pulando), dormir (com as crianças pulando), passar álcool gel (com as crianças pulando) e tudo mais que que tiver que fazer (sempre com as crianças pulando). As outras 16 horas restantes, a gente passa checando as fake news que recebe dos grupos de Whatsapp.
E ainda tem aqueles que acham tempo pra compartilhar notícia falsa de 2005.
Que a pandemia vai passar a gente sabe.
Só não sabemos ao certo, quantos irão sobreviver (ao tédio).
Alguns percentuais aumentaram consideravelmente:
- divórcio
- gravidez
- obesidade
- intoxicação por excesso de produtos de limpeza.
Quem mora em apartamento teve que parar de passar pano porque já estava chegando no vizinho de baixo.
Compartilhei uma mensagem de alguém que pedia doação de alimentos para um abrigo.
Meu marido achou que era com ele e trouxe pra casa:
60 kilos de arroz
12 kilos de feijão
10 vidros de óleo
90 rolos de papel higiênico
e 2 vidros álcool gel (porque só pode comprar 2 por pessoa)
Eu finalmente consegui acabar de ouvir TODAS as musicas do 14 bis
e minha filha já decorou (pulando) todos os episódios da Pepa.
Agora ela está aprendendo Mandarim (ou qualquer coisa parecida) em um canal que a menina abre brinquedos incessantemente.
Hoje mesmo ela veio correndo e disse:
- Mamãe! Colaiqui puzona bon, a lí lô bale bai, (?????????????)
- Tá, tá bom, pode comer, mas para de pular!
Nossa sanidade mental nunca foi tão posta à prova e uma coisa é certa:
Desta geração inteira, quem não enlouquecer de vez, totalmente normal também não vai ser.
Ao fim de todas as considerações, importantes ou não, segue uma pergunta ao fundo,
que por diferentes motivos, ecoa repetidamente em todos os lares:
- Vai ter de janta?
Na verdade, neste momento, todo O mundo tem algo pra dizer.
Quarentena é pra fracos, por aqui estamos de "cinquentena, sessentena" e por ai vai.
Todo mundo está surtando.
Aliás, todo O mundo está surtando.
Tem aquele que vê o jornal cedinho pra saber se o mundo acabou de madrugada
e tem quem só desliga a TV de manhã com aquele suspiro:
Ufa! Sobrevivi mais um dia!
O cachorro entrou na cozinha, eu de cá da janela gritei:
- Pra fora!
Um da rua gritou:
- É! Fora Bolsonaro! (Tá confuso mesmo)
O fato é que ninguém sabe exatamente o que sentir ou em que acreditar.
A gente tem que olhar diariamente na internet, pra decidir se naquela dia é pra amar ou odiar o governo.
Está tudo de cabeça pra baixo.
No supermercado, alguém mede sua temperatura quando entra
e na rua, um cara que não tem casa pra "ficar dentro" pede um pouquinho de álcool gel.
Vai diagnosticar o que com esse termômetro garota? (mas é moda)
E vai limpar o que com esse álcool moço? (pior que também tá na moda)
A dona do sacolão da esquina estava usando um capacete de solda
e o dono da oficina estava soldando um escapamento usando luva plástica, dessas de tinta de cabelo.
Tem tanta engenhoca criativa que tá mais fácil morrer de asfixia do que de vírus.
As academias estão incentivando a malhar um pouco em casa,
o problema é que a casa tá incentivando a comer "um muito", de tudo que tem na geladeira.
A gente administra muito bem, todas as 8 horas úteis do dia para trabalhar (com as crianças pulando), comer (com as crianças pulando), dormir (com as crianças pulando), passar álcool gel (com as crianças pulando) e tudo mais que que tiver que fazer (sempre com as crianças pulando). As outras 16 horas restantes, a gente passa checando as fake news que recebe dos grupos de Whatsapp.
E ainda tem aqueles que acham tempo pra compartilhar notícia falsa de 2005.
Que a pandemia vai passar a gente sabe.
Só não sabemos ao certo, quantos irão sobreviver (ao tédio).
Alguns percentuais aumentaram consideravelmente:
- divórcio
- gravidez
- obesidade
- intoxicação por excesso de produtos de limpeza.
Quem mora em apartamento teve que parar de passar pano porque já estava chegando no vizinho de baixo.
Compartilhei uma mensagem de alguém que pedia doação de alimentos para um abrigo.
Meu marido achou que era com ele e trouxe pra casa:
60 kilos de arroz
12 kilos de feijão
10 vidros de óleo
90 rolos de papel higiênico
e 2 vidros álcool gel (porque só pode comprar 2 por pessoa)
Eu finalmente consegui acabar de ouvir TODAS as musicas do 14 bis
e minha filha já decorou (pulando) todos os episódios da Pepa.
Agora ela está aprendendo Mandarim (ou qualquer coisa parecida) em um canal que a menina abre brinquedos incessantemente.
Hoje mesmo ela veio correndo e disse:
- Mamãe! Colaiqui puzona bon, a lí lô bale bai, (?????????????)
- Tá, tá bom, pode comer, mas para de pular!
Nossa sanidade mental nunca foi tão posta à prova e uma coisa é certa:
Desta geração inteira, quem não enlouquecer de vez, totalmente normal também não vai ser.
Ao fim de todas as considerações, importantes ou não, segue uma pergunta ao fundo,
que por diferentes motivos, ecoa repetidamente em todos os lares:
- Vai ter de janta?
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